quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Sendo o que eu sempre quis ser


Cresci nas décadas de 80 e 90, mas os anos 50 sempre me fascinaram. Lá pelos meus dez anos de idade, eu me encantava com as revistas Seleções do meu avô paterno. Entrava no quartinho da casa dele que terrivelmente cheirava a mofo, ignorando meus espirros e corizas constantes por causa da minha rinite alérgica, e me deliciava folheando aquelas revistas velhas! O que eu mais gostava eram os anúncios, principalmente os da indústria de beleza e eletrodomésticos, com aquelas mulheres belíssimas e voluptuosas, na maioria das vezes fazendo cara de inocente, mas ao mesmo tempo, dotadas de uma malícia sensual irresistível. Eu era capaz de ficar horas admirando aquelas mulheres, e trocava facilmente as brincadeiras da minha idade por aquela que era a minha maior diversão. Minha brincadeira preferida era me fantasiar com as roupas da minha mãe e sair andando pela casa com os sapatos dela de salto. No meu íntimo, eu tinha um imenso desejo de me tornar uma daquelas belas mulheres...
Até que o tempo passou. Veio a adolescência, o complexo com o corpo, escola rígida, religião dominadora, crenças limitantes, feminismo, machismo, conselhos e mais conselhos. E o que ficou para sempre foi a maldita crença enraizada profundamente no meu ser de que aquelas mulheres não passavam de putas. Não, eu nunca poderia me vestir e fazer caras e bocas como elas. Eu deveria ser recatada, discreta e comportada, enfim, preparar-me exclusivamente para ser ótima esposa e mãe. Trabalhar fora talvez, mas sempre colocando em primeiro lugar o moralismo e os bons costumes.
Praticamente trucidei a Afrodite poderosa que havia dentro de mim, sem dó nem piedade.
O tempo novamente passou, tornei-me uma senhora casada, mãe, recatada e trabalhando fora sim, afinal, priorizo minha independência e não gosto de ficar dentro de casa.
Vivi a era da revolução tecnológica, vi nascerem novas tribos e costumes. Estranhamente, também notei pela internet que algumas poucas pessoas compartilhavam da mesma paixão que eu havia sufocado dentro de mim. E descobri que o nome que davam para aquelas mulheres que eu tanto admirava era “pin ups”. Aos poucos, o número de adeptos foi aumentando. Isso me deixou bem eufórica, mas venceu a crença de que aderir ao movimento não era para a minha pessoa. Imagina, eu era casada, mãe, trabalhadora, moralista, correta, gorda, velha, etc e etc.
O tempo mais uma vez passou e completei meus quarenta anos de idade. Não sei explicar se foram os hormônios, maturidade, ou sei lá o quê, só sei que junto com os meus quarenta anos veio uma explosão de amor próprio, e a minha pequena Afrodite foi aos poucos renascendo e ganhando força.
Claro que continuo com aquele receio “do que vão pensar de mim”, principalmente no meu trabalho, mas sei que aos poucos vou criando coragem e revelando o meu verdadeiro ser.
Embora seja somente um estilo de vida diferente do padrão imposto pela sociedade, as pessoas em geral têm uma ideia distorcida do que isso representa. A imagem que as pin ups passam para a maioria das pessoas é de uma mulher superficial, ingênua e submissa, mas não é bem assim. Eu vejo como a feminilidade pura e poderosa que habita o ser de cada mulher, e essa feminilidade foi perdida e massacrada por conta do moralismo. Por que não ser simplesmente a mulher que a gente quer ser, que seja com vestido, perfume, cabelo cheio de adornos, batom vermelho e delineador estilo gatinho nos olhos?

Viva a pin up maravilhosa que está brotando de dentro de mim!