Cresci nas décadas de 80 e 90, mas os
anos 50 sempre me fascinaram. Lá pelos meus dez anos de idade, eu me encantava
com as revistas Seleções do meu avô paterno. Entrava no quartinho da casa dele
que terrivelmente cheirava a mofo, ignorando meus espirros e corizas constantes
por causa da minha rinite alérgica, e me deliciava folheando aquelas revistas
velhas! O que eu mais gostava eram os anúncios, principalmente os da indústria
de beleza e eletrodomésticos, com aquelas mulheres belíssimas e voluptuosas, na
maioria das vezes fazendo cara de inocente, mas ao mesmo tempo, dotadas de uma
malícia sensual irresistível. Eu era capaz de ficar horas admirando aquelas
mulheres, e trocava facilmente as brincadeiras da minha idade por aquela que
era a minha maior diversão. Minha brincadeira preferida era me fantasiar com as
roupas da minha mãe e sair andando pela casa com os sapatos dela de salto. No
meu íntimo, eu tinha um imenso desejo de me tornar uma daquelas belas
mulheres...
Até que o tempo
passou. Veio a adolescência, o complexo com o corpo, escola rígida, religião
dominadora, crenças limitantes, feminismo, machismo, conselhos e mais
conselhos. E o que ficou para sempre foi a maldita crença enraizada
profundamente no meu ser de que aquelas mulheres não passavam de putas. Não, eu
nunca poderia me vestir e fazer caras e bocas como elas. Eu deveria ser
recatada, discreta e comportada, enfim, preparar-me exclusivamente para ser
ótima esposa e mãe. Trabalhar fora talvez, mas sempre colocando em primeiro
lugar o moralismo e os bons costumes.
Praticamente
trucidei a Afrodite poderosa que havia dentro de mim, sem dó nem piedade.
O tempo novamente
passou, tornei-me uma senhora casada, mãe, recatada e trabalhando fora sim,
afinal, priorizo minha independência e não gosto de ficar dentro de casa.
Vivi a era da
revolução tecnológica, vi nascerem novas tribos e costumes. Estranhamente,
também notei pela internet que algumas poucas pessoas compartilhavam da mesma
paixão que eu havia sufocado dentro de mim. E descobri que o nome que davam
para aquelas mulheres que eu tanto admirava era “pin ups”. Aos poucos, o número
de adeptos foi aumentando. Isso me deixou bem eufórica, mas venceu a crença de
que aderir ao movimento não era para a minha pessoa. Imagina, eu era casada,
mãe, trabalhadora, moralista, correta, gorda, velha, etc e etc.
O tempo mais uma vez
passou e completei meus quarenta anos de idade. Não sei explicar se foram os
hormônios, maturidade, ou sei lá o quê, só sei que junto com os meus quarenta
anos veio uma explosão de amor próprio, e a minha pequena Afrodite foi aos poucos
renascendo e ganhando força.
Claro que continuo
com aquele receio “do que vão pensar de mim”, principalmente no meu trabalho,
mas sei que aos poucos vou criando coragem e revelando o meu verdadeiro ser.
Embora seja somente
um estilo de vida diferente do padrão imposto pela sociedade, as pessoas em
geral têm uma ideia distorcida do que isso representa. A imagem que as pin ups
passam para a maioria das pessoas é de uma mulher superficial, ingênua e
submissa, mas não é bem assim. Eu vejo como a feminilidade pura e poderosa que
habita o ser de cada mulher, e essa feminilidade foi perdida e massacrada por
conta do moralismo. Por que não ser simplesmente a mulher que a gente
quer ser, que seja com vestido, perfume, cabelo cheio de adornos, batom
vermelho e delineador estilo gatinho nos olhos?
Viva a pin up maravilhosa que está brotando de dentro de
mim!


